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segunda-feira, 22 de maio de 2017

SOBRE A MÚSICA GAÚCHA E NATIVISTA

A música gaúcha (gaúcha, eu disse, não o nativismo em si) e seu contexto de forma geral não conquistou o Brasil porque é boicotada na própria origem. Quem tenta produzir com uma linguagem e um ritmo mais popular, começa a perder espaço de trabalho aqui, o que inviabiliza a possibilidade de manter a briga por um espaço maior. Simples assim. Como já disse antes, é opção. E que sofre reprimendas. Já o nosso Nativismo, ouso dizer, NUNCA vai conquistar o Brasil da forma como as pessoas fingem achar que pode. Tomem como exemplo o que hoje ainda e chamado de "Sertanejo", mas que na verdade é a fórmula do "mela-cueca" (Luan Santana) ou do embalão (Fernando e Sorocaba) ou os dois juntos (Henrique e Juliano). A verdadeira música sertaneja praticamente não existe a nível nacional, e é linda, uma cultura imensa. No nosso caso, o fato é que ninguém além de nós e mais meia dúzia fora do Estado quer saber de filosofar, ficar falando em "pañuelo" , "encilha" , "tropeada", "cincerro" , "cusco" , "Martin Fierro" e afins. A realidade é essa. E todo mundo sabe. Essa mania que temos de sermos defensores culturais e com verdades únicas nos remete ao ostracismo. E é confortável pra muita gente que diz estar desgostosa. Vejam que é ruim de nos mantermos até mesmo aqui no RS. E a grande prova disso são os movimentos culturais, as oportunidades em televisão e os festivais, que se concentram nas mãos de poucos, cada grupo com seu nicho, defendendo o seu umbigo e mentindo estar lutando pela cultura. Engodo, pretexto pra fazer o seu, afastar concorrência e usufruir do mais do mesmo. Portanto, muito mimimi que já não cola. Vamos parar de drama, todo mundo sabe de tudo. Pelo menos, os que são do meio. O resto é choradeira e vergonha alheia.

quarta-feira, 5 de abril de 2017

O "TANTO FAZ"



               “Tanto faz” é uma expressão de morte. Ou da proximidade dela. Mas não aquele “tanto faz” leve, despretensioso, pra “agilizar”, por vezes até carinhoso e afetuoso. Me refiro ao “tanto faz” mais profundo, mais significativo. Aquele que sai do coração, da alma, do cansaço mental, psicológico. Aquele que carrega consigo toda uma carga de decepção, de mazelas, de falta de consideração, de desinteresse, de mágoas ou coisas do tipo.
               Definitivamente, o “tanto faz” é uma sentença. Ou é o  início do fim ou é o próprio fim. É um sentimento e também a sua falta.
               Quando se decreta o “tanto faz” de uma forma recorrente para situações de relacionamento, é porque algo não vai bem. Seja no amor, na amizade ou na simples parceria. É um sintoma fatal de que a importância já não é a mesma, que o zelo e o cuidado já não fazem parte do cotidiano, tampouco são preferenciais.
               Quando alguém recebe um “tanto faz” como resposta para situações de relacionamento, de uma forma habitual, deve ficar atento. Isso é um forte indício de que, talvez, essa pessoa já não seja mais prioridade para a outra.
               Qual o motivo do “tanto faz”? Quando ele surge, e porque ele começa a fazer parte de nossas vidas? Difícil saber. Mas sua ocorrência não é rara, e isso é fato. Certamente, isso deve ser analisado mediante todo um contexto, para que se chegue a uma conclusão ao menos próxima da realidade. Descuido, desleixo, desamor, rotina, desconfiança, enfim... várias podem ser as causas.
               Não saberia dizer se há como reverter o cenário do “tanto faz”. Até acredito que sim. Contudo, creio que exista uma pergunta a ser feita no caminho: vale a pena?  Se o tanto faz surgiu, é porque houve desgaste, houve quebra, há um rompimento em pauta. Alguns - muitos até - dizem que relacionamentos podem ser reconstruídos, podem ser mantidos através de esforço, de entrega, de correção de rumos. Até pode ser. Porém, ele nunca mais será o mesmo, sendo preciso analisar se essa tentativa de extirpar o tanto faz irá realmente satisfazer o coração e a alma ou somente será uma tábua de salvação que leva o relacionamento à estagnação, à comodidade, ou, o que é pior: a lugar nenhum!
               O que procuramos afinal? Pessoas que nos completem – ou que sejam inteiras -  mesmo em silêncio, mesmo confrontando-nos, ou uma vida de “tanto faz”? Desejamos pessoas que andem em nossos caminhos sempre com ares de novidade ou com uma certa mesmice estonteante, ou queremos realmente uma rotina inócua de “tanto faz”?  Queremos pessoas que façam parte dos nossos sonhos e  motivem nossos rumos, ainda que incertos, ou estamos atrás somente de uma zona de conforto, para vivermos na morbidez de dias sem cor, sem tons e sem desafios?
               Em “Por Enquanto”,  Renato Russo demonstra a força dessa expressão:
“nem desistir,  nem tentar, agora tanto faz...
estamos indo, de volta, pra casa...”
Esse verso pode ter várias interpretações, mas observando o contexto poético, a meu ver, demonstra a desilusão, a decepção, o desespero de quando não se tem mais nada a fazer. Um “tanto faz” de quem admite a impossibilidade de reverter algo negativo, de quem sabe que há de conviver com a dor.
Uma coisa é certa: o “tanto faz” tem acabado com muita coisa boa por esse mundo. Muito se perde no vazio de um "tanto faz"
               Somos pessoas merecedoras desse tipo de fatalidade?
Cada um deve descobrir a sua resposta. E a atitude que se toma após essa descoberta, certamente muda tudo. Ou não. Ou tanto faz? 


terça-feira, 4 de abril de 2017

O PROBLEMA SOMOS NÓS!


O RS é o Estado dos exageros. É bom e ruim por isso. Trato agora do lado ruim, que é quando o nosso bairrismo ou complexo de suposta superioridade atropela o bom senso. Ou nossos desencantos vem à tona. Na música e na poesia isso é ainda mais latente. As pessoas perdem a capacidade de entender contextos maiores, e parecem querer descarregar, por exemplo, suas frustrações em um menino de 9 anos apenas, como tenho tido o desprazer de constatar por aqui. Dissertam teorias de canto e postura cênica como se fossem ases da interpretação, muitos sem terem conseguido em uma vida inteira um décimo do que esse piá conseguiu, nem mesmo em personalidade!
No próprio cancioneiro gaúcho desde sempre eu não sou capaz de fechar duas mãos de cantores que sejam tão bons quanto o que esse povo tem exigido. Ao contrário, a maioria tem mais amor ao que faz do que técnica propriamente dita. E isso é ótimo. É o nosso "sotaque" musical. É pura chatice mesmo. Gente enchendo o saco por causa da pilcha, quando só usa pra ir num bailezito, ou tomar mate na praça ou posar pra foto e ficar com cara de bunda fantasiada. O gaúcho, por conceito e ideal, é livre. Por ser livre, é gaúcho do jeito que quiser, na forma que lhe aprouver, em especial, quando não há regra do jogo. Essa mania de implicar com a maneira de cada um e de normatizar o ir e vir e até o pensar dos outros, cada vez diminui mais nossos costumes, afasta ao invés de agregar. Ficamos mais longe ainda de um tempo que dizemos perseguir. Quando não conseguimos aplicar bom senso e nem ficarmos felizes pelas conquistas de uma criança, cujo feito é grandioso, avançamos rumo a um estereótipo de ser, que há de lamentar por ter perdido sua capacidade de evoluir, ainda que se queira manter as raízes firmes no chão. Isso é preocupante. Árvores secas não dão frutos, e suas raízes não resistem ao tempo, que sempre há de cobrar seu uso indevido.
Gaúchos de verdade, pessoas que contribuem de fato para sermos o que somos - e o que seremos - possuem empatia, são capazes de amar e de admirar o próximo. Gaúchos de verdade sabem que há um limite para passar vergonha opinando por meio da inveja e do despeito.
E ponto.

sexta-feira, 3 de março de 2017

QUANDO XINGAVAM A MÃE


Na minha época, quando se xingava a mãe, a guerra estava declarada. Era um ultimato. Um limite moral estabelecido. Definia até que ponto a gente iria em uma briga. Muitas boas amizades não vingavam por um pronunciamento afoito nesse sentido.
Com a irmã acontecia algo bem parecido. Uma raiva e um desaforo menos intenso, mas tão inaceitável quanto.
Na minha época era assim.
Muita gente ri, acha que é mentira, mas o desafio do cuspe também existia. Cuspia-se no chão e quem pisasse primeiro enfiava a mão nos beiço do outro. Simples assim. O final ninguém sabia. Mas havia honra em cumprir o rito.
O te espero na saída: promessa cumprida ou vergonha total.
A rua de tal lugar contra a rua do lugar x.
A pelada no campinho de cima, onde os times já eram formados pensando no final: peleia. Até o mais covarde ia na onda, pra não ser achicado depois.
O cara enjoado do colégio complicando com os mais novos, mais fracos e menos populares. Ele também tinha um limite no xingamento. Até se dava bem durante um tempo, mas em algum momento ele sofria as consequências de um xingamento indevido.
Havia um sentido moral e ético em resistir a isso, e o respeito a mãe era a fronteira da dignidade.
Minha geração passou por todos esses sofrimentos e angústias. Uma geração simples mas valente, de sangue nas veias! E que não aceitava que xingassem a mãe.
Não há mais honra nas brigas e nas discussões. A criatura já arranca xingando a progenitora do cristão. E aí? O que fazer? Limite extrapolado na primeira argumentação!
Isso é imperdoável!
Onde estão as pessoas com honra? Pessoas que não deixavam xingar a mãe ou que usavam esse xingamento como último recurso?
O mundo está do avesso!!!
Que esses fdp vão pra pqp.


sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

A VEZ DOS IMBECIS



As pessoas estão horrorizadas com os imbecis, mas eles sempre existiram. Desde que o mundo é mundo eles andam por aí, num trabalho ferrenho de imbecilizar tudo. A diferença é que hoje a imbecilidade está globalizada, por conta do advento das redes sociais. Como diria Umberto Eco, eles ganharam voz. E vez. E realmente são legiões.
Tem muito imbecil que aproveitou essa questão inerente as redes sociais para disseminar seus pensamentos ilógicos, em busca de mais imbecis. E eles conseguem. Muitos são formadores de opinião. Alguns já contam arregimentaram exércitos seu favor, o que chega a dar um pouco (ou muito) medo.
Alguém poderá perguntar como eles conseguem essas façanhas, afinal, são imbecis. Sim, mas um imbecil de raiz é alguém que se aperfeiçoou nisso. É mais ou menos como se essa pessoa possuísse um curso avançado, uma pós-graduação em imbecilidade. Quem passa a vida sendo imbecil, acaba adquirindo maestria nisso.
Os grandes imbecis chegam a ser doutrinadores. A história antiga e recente nos mostra isso. E, nesse momento atual em que vivemos, eles são profissionais em sua arte. Estão sempre à espreita, sempre bolando uma forma de praticar sua maldade, destilar seu veneno, de aprofundar a humanidade em suas chagas.
O imbecil faz parte de uma categoria da humanidade que prejudica tudo, uma vez que são capazes de possuir diversas aptidões para coisas nada admiráveis, como egocentrismo, vaidade, inveja, pessimismo (ou otimismo exagerado), poder de destruição, intolerância, mania de perseguição, paranoia, etc, etc, etc.
Imbecis vencem pautas e debates no “cansaço”, pela experiência que possui em ser imbecil. Ou na truculência e imposição. Simples assim.
Um imbecil motivado é perigo dobrado.
Essas criaturas possuem uma característica muito peculiar, que é simplesmente ignorar que imbecis ou, ainda, acreditarem ser intelectuais, facilitadores de qualquer coisa, agilizadores, precursores, salvadores em potencial.
Eles não se aperfeiçoam do nada, pois seguem um roteiro próprio e de sucesso, mantém uma tática, uma prática quase que cotidiana, ou seja: são imbecis quase que em cem por cento do tempo de suas vidas.
Já disse Oscar Wilde: “Os loucos às vezes se curam, os imbecis, nunca!”
É fato: eles existem em grande quantidade. Inevitavelmente, em algum momento, eles cruzam – ou entram – em nossas vidas. Não há muito o que fazer. A não ser, resistir.
Sim, é preciso resistir. Se não o fizermos, o mundo, que já é comandado por imbecis, vai ser completamente destruído por eles, bem antes do que imaginamos.
Eu sei, não é fácil combater a imbecilidade sem imbecilizar-se.
Mas é preciso.
Precisamos ser mais producentes, mais combativos, mais realizadores, mais vivos.
Precisamos ser mais. Temos sido mais? Temos combatido a ignorância, a intolerância, ou o mal mesmo, com ideias inovadoras, com atitudes que modifiquem contextos e prognósticos desfavoráveis ao bom senso e à razão?
Se a resposta for não, o que nos diferencia mesmo dos imbecis?
Com certeza, é preciso reflexão sobre esse assunto.
Contudo, talvez seja bom ignorarmos esse texto. Afinal, eu posso ser um imbecil, não é mesmo? E tu?
Será que é a nossa vez?









quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

A NEGLIGÊNCIA



A negligência é um grande problema. E o que a torna mais perigosa é o fato de que a negligenciamos. Algo meio surreal... e irônico.
Quando a negligência se torna rotina, deixamos de percebê-la, não atentamos para os riscos que ela nos traz.
Dificilmente ela surge de forma abrupta, geralmente vai nos envolvendo, vai adentrando nossas vidas pelas frestas do cotidiano, pelas frinchas do descuido, entre as sombras do desmazelo. Quase sem perceber, negligenciamos grande parte das coisas naturais e que nos fazem tão bem para sermos absorvidos por coisas insignificantes, que não acrescentam nada, ou que não agregam fatores positivos a nossa alma.
Não raro, negligenciamos a essência humana, para mergulharmos, absortos, no afrodisíaco paraíso das bestialidades materiais, na mais legítima ostentação do ter, sempre em detrimento do ser. São os descaminhos da vida, as luzes falsas do mundo, oásis imaginário em meio a desertificação do benquerer.
Até mesmo a Bíblia, livro que atravessa os séculos e lida com o poder da fé, possui momentos nos quais podemos verificar a constante preocupação com a capacidade que nós, seres humanos, temos de agir com desleixo e descuido. Vide, por exemplo, Hebreus 2:1-4.
A negligência age em nossas vidas em contraponto: ora somos vítimas, ora somos vilões. Vivemos num misto de mocinho e bandido. Por vezes, somos os dois lados da moeda. E, com toda a certeza, sempre somos atores.
Quanto de negligência há na tão badalada prática do desapego? Por certo, poucos param para pensar sobre isso. E quando se dão por conta, já negligenciaram.
A negligência no trabalho, gera a despedida, a rua.
A negligência na família e nas amizades, gera o abandono, o desafeto.
A negligência no amor, gera o seu oposto ou a indiferença.
A negligência na vida, gera a morte. Mesmo que em vida.
Muitas vezes, os danos causados pela negligência são irreparáveis.
Negligenciar o que realmente tem importância, é estar com os dois pés fincados no inferno do “pouco caso’. É navegar no mar revolto do “pouco me importa”, que acaba sempre levando nossos barcos para o porto da angústia, da solidão, do medo e da frustração.
Em regra, não temos tempo para negligenciar a vida. Mas, por natureza, negligenciamos regras.
A negligência é uma arma apontada contra o bom senso, pronta para destruir nossa consciência, para animalizar e canibalizar nosso coração e nossos sentidos. Ela afeta, deturpa e destrói nossa humanidade.
Estabeleça uma meta: NÃO NEGLIGENCIAR. Talvez não seja fácil, mas certamente pode ser compensador e edificante perceber que é possível lutar contra nossas próprias falhas, nossos próprios desvios de caráter e conduta.
Não somos perfeitos. O fato é que precisamos melhorar e progredir sempre. E não podemos negligenciar isso.

(imagem: Google/internet, sem autoria)

Caine Teixeira Garcia.

Bagé, 26/01/2017
 


sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

BREVES REFLEXÕES SOBRE POESIA

Por vezes alguns assuntos me inquietam, e quando julgo necessário escrever sobre eles, assim o faço.
Estava lendo e analisando  poemas de autores mais antigos e renomados, como Manoel de Barros, Castro Alves, Álvares de Azevedo,  Mário de Andrade, Machado de Assis,  Basílio da Gama e outros tantos.
Ao analisar os versos, não pude deixar de pensar que a poesia mudou completamente, no tocante à forma como é pensada, elaborada, escrita e lida. Levando em conta, logicamente, a questão temporal, social, política,  econômica e demais importantesaspectos de influência, não há como negar que a poesia está mais democrática e popular. Em que pese o fato de que perdeu um pouco de seu "glamour", é gritante que se tornou mais acessível e popular.  Muitos dirão que perdeu-se um pouco da "intelectualidade" poética,  e isso também é fato. Mas essa suposta - e muitas vezes real - intelectualidade, por muito tempo serviu, me parece, apenas para elitizar a poesia e seus operadores, de uma forma que o conteúdo poético, por vezes, era o que menos interessava. Bastavam boas roupagens de um português correto e rebuscado,  para que algumas poesias fossem classificadas como ótimas, e seus autores como deuses. Um pouco dessa mentalidade ainda persiste hoje em dia. Avesso a esse pensamento, e sem negar que provavelmente tenhamos muito mais poesia de menos qualidade atualmente, também vejo que é notório que existe uma maior produtividade.  Embora, nesse caso, seja válida a qualidade e não a quantidade,  precisamos perceber que essa maior democracia e o caráter cada vez mais popular da poesia,  gerou uma quantidade enorme de novos poetas produzindo muitos versos, se expressando muito e, consequentemente,  aumentando a quantidade de produções com qualidade.
A poesia, em outros tempos, mais do que pomposa, era um tanto arrogante. Embora sedutora, enigmática e desafiadora,  não era agregadora e inclusiva.
Não raro, era um amontoado de palavras difíceis, que sequer compunham cenários e visões de sonhos aos seus leitores. Muitas construíam  apenas  um muro imaginário  - e quase intransponível  - de castas culturais.
Viajando em minhas reflexões para as questões regionais,  onde sou um dos "poetas" que circulam suas produções  nesse meio que é  tão peculiar e cheio de singularidades,  por vezes me questiono qual a diferença entre "letra" (termo tão utilizado em nossos festivais e por praticamente todos os autores) e poesia. Parece fácil entender e verificar que nem sempre uma letra pode ser classificada como poesia.
E o que temos produzido?
Devido ao nosso "nicho" de mercado poético/cultural, me obrigo a dizer que muitos de nossos poetas encontram-se tolhidos em sua produção e capacidade poética, pois o meio exige sempre uma questão muito pontual nos versos, muito regional, muito bairrista, até.  Embora sendo universal,  por questões muito nossas, temos dificuldades em progredir a ponto de vermos poetas falando em vários temas sem que, em algum momento, sucumbam a tentação de regionalizar o verso. E não estou falando aqui que devamos perder nossa identidade, nosso sotaque cultural. Apenas que, talvez, também estejamos "elitizando"  nossa poesia, de uma forma até,  quem sabe, inconsciente.
Me parece que Luiz Coronel é um dos poucos exemplos que, ao meu ver, consegue muito bem representar nosso Rio Grande de uma forma regional e universal, transitando e sendo aceito de forma quase unânime em todos os "ambientes poéticos".
Temos feito poesia? Ou temos "acolherado"  palavras e rimas? Quantas produções poéticas nos remetem realmente a momentos que nos fazem imaginar cenários e questões nostálgicas,  ou presentes e futuras; que nos instigam, nos desafiam, nos obrigam a enfrentar questionamentos  filosóficos de tempo e de mundo?
Estamos produzindo para alguém ou para algo? Por que estamos produzindo? Precisamos de motivos?
Será que termos como samba, bagual,  chinoquinha,  baeta vermelha, e outros tantos - que também os uso - ainda são capazes de moldar uma verdadeira poesia original, timbrada em inspiração que não seja de uso exclusivo para ajuda de custos e premiações em festivais ou outras competições?
Quem julga nossas poesias? O que produzimos  em termos de eventos representa uma verdade poética/ cultural? A existência  dos eventos
atuais - maioria de cunho competitivo  - representa o que somos e o que queremos em termos culturais?
Esse é o nosso formato? Precisamos de um formato?
Quem julga nossa poesia? Ela precisa ser julgada? Se precisa, os que julgam tem tido a capacidade necessária para fazê-lo? Temos criado artistas, poetas, pensadores ou santos de barro? Qual nossa parcela de contribuição e de responsabilidade?
Ainda fazemos poesia?
Não sei.
Cantemos e poetisemos nossa aldeia. E nossa aldeia é o mundo.
Ser nativo impõe limites?
Qual o ponto de equilíbrio?
Fico a pensar...

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

O NATAL NÃO É PARA TODOS


Enquanto desse lado do mundo estamos pensando em que roupa usaremos no Natal e na virada de ano, muitos estão pensando em, quem sabe, apenas sobreviver até lá.
Enquanto buscamos, afoitos, por presentes que agradem aqueles que amamos, muitos rezam para encontrarem os seus por debaixo dos escombros deixados por guerras irracionais e sem sentido.
Enquanto pensamos se devemos perdoar erros bobos praticados por amigos e parentes, muitos se perguntam o que fizeram para merecerem tamanha judiação e desumanidade.
Enquanto não valorizamos o nascer do sol e não paramos um minuto sequer para presenciar o seu espetáculo durante os finais de tarde, muitos dariam tudo para que o único clarão que vissem fosse o do astro-rei, e não o de tiros e bombardeios cotidianos, dia após dia, noite após noite.
Enquanto sonegamos abraços, beijos e carinhos aos que nos são caros, muitos esperam, num resquício de esperança, uma única mão estendida que possa lhe tirar do caos e do sofrimento, ainda que seja de um completo estranho.
Enquanto praticamos nossos exercícios e dietas em busca de uma fugaz e efêmera beleza física, muitos literalmente morrem de fome. De sede. De frio. E também estão carentes de alimento espiritual. Habitam o inferno, sem que tenham feito nada para isso.
Enquanto buscamos e nos deleitamos com as carências de nossos próprios egos, o mundo que criamos engole - sem dó e nem piedade - os irmãos que renegamos.
Que mundo é esse?
É o mundo no qual vivemos!
Com certeza, o sentimento é de total impotência.
Mas eu sei que a dor do irmão agride e fere a muitos, assim como faz comigo.
Tudo que escrevermos sobre esses assuntos carregará sempre um grande percentual de hipocrisia (quem sabe até a sua totalidade o seja) pois estamos longe, muito longe das piores mazelas que a humanidade impõe aos povos mais sofridos de nossos tempos.
Mas quem sabe se ao escrevermos e falarmos mais sobre isso, se aos nos questionarmos e enfrentarmos mais esses tipos de horrores, não possamos causar uma corrente positiva que possa, enfim, sensibilizar e influenciar de maneira mais humana e sensata os verdadeiros responsáveis por tanta barbárie.
É impossível que tenhamos um Natal e um Ano Novo totalmente feliz , num momento em que tanta gente inocente sofre e morre, independentemente de serem crianças, velhos, homens ou mulheres.
Morrem simplesmente por terem nascido.
Sei que comemoraremos o Natal e o Ano Novo, ainda que saibamos dos sofrimentos de tantos irmãos...
Mas e o Natal de Aleppo? E o Natal na Nigéria, onde o Boko Haram pratica seus massacres?
Bom... isso sempre será um adaga enfiada em nosso peito,
cujo ferimento se tornará mais e mais profundo a cada minuto que passa, a cada presente que abrimos, a cada alegria que desfrutamos. Ignoraremos, mas ele estará sempre ali.
Se o Natal é mesmo somente uma data comercial, nem mesmo isso é possível para todos.
Para nós, os infortúnios e a dor impiedosa que assola nossos irmãos, por enquanto ainda é algo passível de ser escondido e suportado. Mas tenho certeza que, em algum momento, haveremos de pagar um preço por tanta omissão e insanidade.

#pelofimdasguerras #salvemAleppo #salvemaÁfrica #salvemahumanidade


segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

O MUNDO CHATO


Existe um mundo chato, que tem se apropriado de nossos dias. Nesse mundo surreal, tentam nos convencer que é pecado ser feliz, que é feio brincar, que é politicamente incorreto tirar onda dos amigos e adversários (no bom sentido).
Esse mundo chato se utiliza do mundo real, onde somos usurpados e achincalhados dia após dia, para afirmar que devemos abrir mão de momentos por vezes fugazes de felicidade, em prol de uma tristeza eterna. Como se já não tivéssemos motivos suficientes para estarmos tristes. Que bom que encontramos a felicidade e a alegria em coisas que permeiam essa mescla de mundo chato e mundo real. Torcermos para um time de futebol ou vibrarmos com disputas musicais, por exemplo, não nos torna cegos, incapazes ou submissos a nada. Pelo menos, não a maioria. Ao contrário, demonstra uma capacidade ímpar de buscar alegria e motivação apesar dos pesares. Isso não tira nossa índole para o bem e muito menos diminui nosso espírito de luta e nossa vontade viver mais e melhor. Queremos um mundo mais justo e humano, mas não é preciso que para isso abdiquemos de nossa capacidade plena de amar e nos entregar por aquilo que nos faz algum sentido, por bobo que possa parecer. Jogadores e cantores, novamente exemplificando, não são nossos grandes heróis e nem modelos de vida. Simplesmente são pessoas que despertam em nós o bom de nossas emoções, em 99% dos casos e situações. A ampla maioria das pessoas opta viver pelo bem e de forma digna. E só querem um pouco de paz e alegria. Usar o mundo real para colocar as pessoas dentro de um mundo chato, onde as regras são ridículas e diminuidoras de personalidades, de fato não é justo. Não é legal. Tampouco humano. Torcer é bacana. Vibrar é massa. Brincar, zoar, curtir, é da essência da felicidade. A hipocrisia não deve vencer o bom senso. O resto é mimimi de segunda.

Foto: mateus Bruxel / Agencia RBS

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Mundo amigo?

Nos momentos mais difíceis, o que mais me impressiona sempre, é que o mundo não para. Ele segue adiante, não tem dó.
Quando converso com as pessoas, tenho - e colho - a sensação de que se algo de ruim acontecer um dia, o mundo estará à disposição para ajudar, as pessoas serão solícitas, as coisas não serão tão difíceis, haverá amparo e guarida. Haverá uma saída sem traumas.
Mas, por experiência, sei que isso não é verdade. A importância que se dá a dor alheia é muito fugaz... às vezes, dura menos que um quarto de hora.
Muitas vezes, a importância é dada na exata medida em que nossa dor ou desespero "interessa" ao outro...
Independentemente do que aconteça, amanhã haverá outro em seu lugar. E se não houver, é porque o seu lugar já não era interessante ou necessário... ou pior: você era descartável, ainda que pensasse o contrário.

Eu sei... é muito pessimismo.
Mas contém altas doses de realidade.
A consternação, em sua maioria, é uma lágrima de novela.
Será mesmo que mundo não é amigo de ninguém?


segunda-feira, 7 de novembro de 2016

AS PESSOAS PARTEM



Quando alguém que considerávamos importante, parte de nossa vida – e não estou falando de morte - naturalmente sentimos saudades, angústia, medo, frustração ou tantos outros sentimentos que poderiam ser citados aqui.
Por óbvio, nos pomos a refletir sobre quais os motivos e circunstâncias fizeram com que essa pessoa deixasse o nosso convívio. Pelo menos, comigo é assim.
A verdade é que não estamos – e talvez jamais consigamos estar – habituados com a partida, com o rompimento. Principalmente quando se dá de forma unilateral e mesmo que isso ocorra de forma amigável, pacífica, sem motivos ou faltas graves aparentes.
O adeus – ou a falta dele – é sempre traumático. Ainda que não percebamos em um primeiro momento.
O convívio que se desfaz, nos deixa em queda livre no abismo dos questionamentos e das dúvidas. Ficamos a procurar uma saída no labirinto do ego e dos relacionamentos, onde habitam vaidades, manias, imperfeições e aqueles que somos realmente. A autoestima busca encontrar razões e evitar sequelas.
Muitas vezes nos penalizamos, sem encontrar uma resposta que satisfaça aquilo que temos por verdade em nosso modo de viver, de interagir e de nos relacionarmos com os outros.
É triste e até mesmo revoltante quando percebemos que gastamos energia com algo que, ao cabo, vemos que não tinha a menor chance de dar certo. Ou quando vemos que no desenrolar dos fatos, fomos utilizados como ferramenta para outros fins, que não aqueles sobre os quais debruçamos nossa crença e confiança.
Mas a frustração é pior quando nos damos por conta que alguma coisa não deu certo devido a nossa falta de atenção com algum detalhe, em algum momento que foi decisivo para o ocaso de algo que poderia ter dado certo. Ou pelo menos terminado de outra forma.
Mas, muitas vezes, nós já sabemos as respostas. E para não admitirmos que apostamos em algo que nos decepcionou, não damos o braço a torcer. Não queremos ver o que está escancarado à nossa frente, ratificado por uma série de atitudes e posicionamentos duvidosos. Não é fácil aceitar os próprios erros. Não é fácil aceitar que fomos tratados como um adereço para a vida e o cotidiano de alguém.
Mas é fato. As pessoas partem. Elas nos deixam.
Muitas nos abandonam sem nem olharem para trás. Saem de nossas vidas como se nada tivesse acontecido.
É assim e sempre será. Nos encontros e desencontros da vida, pessoas entram e saem de nossos dias e corações, muitas vezes sem que nem tenhamos atuado para isso. E todas elas carregam consigo ensinamentos.
Em todas as situações, podemos aprender a melhorar nosso modo de ser, aprimorar nosso caráter e fortalecer nosso espírito.
Cada vez mais entendo e tenho como lei que devemos valorizar muito nossos amigos de sempre. Os de fé. Aqueles que estão ao nosso lado na vitória e na derrota. Que são capazes de sorrir de felicidade com nossas conquistas.
Não que devamos fechar as portas para novas amizades, novos tempos. Ao contrário. Mas devemos saber que o ser humano, em grande parte das situações, prioriza sempre e tão somente a si mesmo. Seu interesse em relação ao bem estar do outro, muitas das vezes é inócuo. É fugaz. Não é verdadeiro.
Pessoas que partem, sempre levam um pouco de nós. Mas também deixam um pouco de si, ainda que seja seu pior pedaço. Contudo, até esses mal bocados podem servir para que cicatrizemos feridas e aprendamos, nos impulsionando adiante.
Entretanto, existem aquelas pessoas que partem sem que nos tenham ferido, deixando ainda um legado de melhorias na alma. Essas, são dignas de nossas mais belas orações e considerações. Elas existem e são muitas espalhadas por aí.
Cada pessoa que escreve uma página no livro de nossas vidas, tem uma missão a cumprir. Muitas serão especiais, outras nem tanto. Várias serão um fardo. Muito poucas serão realmente uma benção.
Pare pra pensar: quantas vezes isso já aconteceu na tua vida?
Acho realmente que devemos agradecer todos esses momentos. Pelo que ficou e, muito especialmente, pelos livramentos.
Aprendamos e entendamos: as pessoas partem. Simples assim.
Nós também, em algum momento, já partimos da vida de alguém. Por diferentes motivos. As vezes por não refletir o suficiente, outras, exatamente por ter refletido o bastante.
O que faremos depois da partida, é que tornará nossos dias melhores ou não.
Somos os únicos responsáveis por nossas vidas. Os gerentes de nossos erros e acertos.
Devemos saber dar o valor ideal para cada coisa. Até mesmo para as partidas. Afinal, elas sempre existirão. É preciso que aprendamos a fazer com que todas elas sejam positivas, de alguma forma, em algum momento.
Nossa passagem nesse mundo não precisa de muitas pessoas. Apenas das que queiram realmente estar conosco. Precisamos ter essa consciência, para que nossa alma tenha paz.

Imagem: Google/autor desconhecido
               Caine T. Garcia
Bagé, 07/11/2016.