VISITANTES

Mostrando postagens com marcador alma. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador alma. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 8 de março de 2016

BATISMOS DE LUA



Por ter batismos de lua

Não raro também sou luar

Carrego cisma e feitiço

Neste meu jeito lunar

Que singra escuros de noite

E as madrugadas sem par

... A beber pampa e horizontes

Nas fontes do versejar...



Com cascos amolecidos

- De sereno - o meu cavalo

Sabe dos quatro motivos

Que habitam os céus do pago

A lua me inspira versos

Conhece as ânsias que trago

Velando sonho e segredos

E as inquietudes que calo

Assim que a dama prateia

Campo e sanga onde navego

A alma, que é prisioneira

Dos versos - a quem me entrego

Rebenta qualquer maneia

Pro sonho enfim, ser liberto

E a própria lua me beija

Pra o poema ser completo.



Por ter batismos de lua

Sonho nela me encontrar

Sangrando vida e poesia

Mesmo em noites sem luar

E quando um dia, eu me for

Os meus versos vão contar

Que parti em quatro luas

Que sempre trouxe no olhar!


quinta-feira, 3 de março de 2016

DE QUEM MATEIA SÓ



Na maioria das vezes, matear sozinho, a meu ver, é um ato de respeito. Respeito consigo, respeito para com os outros.

Bem sei que ao falarmos em mate, em chimarrão, de pronto já pensamos em algo coletivo, em comungar, em compartilhar, em confraternizar, em união. Contudo, há momentos em que o mate se apresenta para o indivíduo de uma forma diferente, uma maneira de exercitar a autocrítica, uma oportunidade para alguns instantes de reflexão interior.

E às vezes é tão somente uma simples válvula de escape.

Há quem não entenda isso.

Algumas pessoas têm essa mania – que para mim é um defeito gravíssimo – de achar que os outros não podem viver um breve momento de retiro, um pequeno período de isolamento. E muitas ainda fazem caras e bocas e rotulam essa atitude como estranha.

Pior: alguns ficam na volta do vivente, como mosca em tampa de xarope, fazendo questionamentos inócuos ou de olhos vidrados no cristão, talvez tentando adivinhar qual dos dois milhões de motivos que passam por sua cabeça que realmente se encaixa na situação da pessoa que está ali, buscando única e exclusivamente um instante simples, de serenidade, de encontro com uma paz personalíssima.

Não é fácil.

O mate é um momento sagrado, seja ele compartilhado ou não.

Tanto em uma roda de mate quanto em um matear solitário, temos momentos importantíssimos para a coletividade e para o indivíduo. No primeiro, experimentamos a aproximação, o benefício comum, a entrega e a interação. No segundo, uma dedicação com o aprimoramento pessoal, a busca mais interna, a paz espiritual.

Como vemos, embora distintos, ambos os momentos são importantes, demonstram respeito e capacidade de envolvimento com tudo aquilo que nos cerca.

Logicamente, este é um exercício de reflexão que leva em conta pessoas “normais”. Ou seja, não estou aqui defendendo uma tese baseada em indivíduos demasiadamente egoístas, com egos gigantescos, nem tampouco analisando possíveis atitudes de pessoas que buscam a solidão como forma de punição para si ou para os outros, por meio de engendramentos perversos que ocorrem em mentes não menos problemáticas.

O raciocínio é exercido em cima de vivência, convivência, aprendizado e observação.

Portanto, não julguem aquele que mateia só. Não o menosprezem. Não o castiguem com falsas afirmações ou premissas. Ele tem suas razões.

Quem nunca?

(IMAGEM DA INTERNET/GOOGLE - autor desconhecido)


terça-feira, 1 de março de 2016

DE ESPORAS CALÇADAS


DE ESPORAS CALÇADAS


A madrugada, preguiçosa e cálida
Tece um silêncio incomum!
Nem corujas, em seu mau agouro
Nem alaridos do vigilante quero-quero...
A natureza parece estar adormecida
Burilando saudades e nostalgias
Nestes remotos recantos do sul...

O vento manso, sereno e morno
- Que varre o ventre do galpão
Conta das chuvas que se avizinham...
Ouve, impaciente, o estertor do fogo
Que mal e mal aquenta a cambona...
Parceiro desse meu tempo solidão
Sopra o braseiro, incitando à vida!

Um ovelheiro chaira a preguiça
Bem recostado, num mangrulho,
Enquanto outro ressona as horas
No catre bueno dum doze braças...
- esquadrinhadores de campo e lida!
...o lampião antigo atrai as mariposas
Para uma dança prenhe de luz...

Adiante da porteira, outro cenário:
Os pirilampos plagiam estrelas
Que rasgam a escuridão silente...
... sina eterna de ser - e viver - luzeiro!
Quase sepulcral, é imensa a quietude:
Nem bruxas rondando a cavalhada
E nem gadaria ecoando um missal...

Encravada num céu de setembro
- qual fosse mesmo um balaço no breu
A velha boieira, sinuela e madrinha,
Causa inveja aos olhares da lua...
A noite pari uma estrela cadente
Que ruma, rutilante, ao banhado
Adormecendo entre brejo e canhada...

A letargia só é bulida pelas esporas
Que, sonolentas, ainda calço!
Me agrada o seu tilintar baldoso...
Um ou outro ruído ainda se ouve,
Das janelas e portas arrenegadas,
- Em suas vozes de velhas dobradiças...
Querendo mais, embalar o tempo...

O chimarrão charla com o vento
Na bomba que ronca, com sede
Parecendo ecoar longe, no pajonal...
Algum mistério de outras eras
Parece abraçar pampa e caserio,
Repousando dentro da alma,
Quem sabe, a curar dissabores...

Há algo mais, que não cabe à visão,
Tão perdida, no que os olhos veem...
Imperceptível a ouvidos moucos,
O silêncio teima em falar de vida!
O luar que vem beijar os plátanos
Confunde-se entre prata e verde
Em copas grandes, parteiras de sombra...

Enigmática madrugada primaveril,
Sem cargas de cavalos na eguada
E sem algazarras pelos caponetes...
Inúmeras metáforas para o momento,
Frente à realidade pura e insistente,
Que habita a simples complexidade
De ser, em completude... querência!

Talvez o aroma inebriante das flores
Tenha embriagado essas sesmarias...
A mim, tocou uma senda contrária:
Noite e madrugada indormidas!
O pensamento pujante de anseios,
Absorto na plenitude ao redor,
Reverberando o que pulsa no peito...

É flagrante que se achega o dilúculo,
Espraiando as frinchas do arrebol,
Que apeia, apojando um novo dia...
Como feitiço desfeito, tudo renasce!
A campanha se espreguiça, plena...
Berram tambeiras e a terneirada,
E o pingo afoito, pede milho e buçal!

Aspas se afiam num cupim, ao longe,
E um galo afina o canto, no terreiro...
O sol vem repontando o ritual,
Sem respeitar os flagelos da insônia.
Cada detalhe desse novo amanhecer
É um madrigal com gesta terrunha,
Orquestrado em dialetos silvestres...

O inverno, por certo, sequer imagina
As belezas que a primavera abriga...
Se soubesse, não mais seria estação!
Embretado em meus desassossegos,
Me perdi nas horas, que cruzaram largas...
O alvorecer, indelével, chama à faina
Ao taura que honra o compromisso!

Venço o cansaço, pois é meu costume
Singrar madrugadas – e meu interior...
A mão canhota embuçala a certeza
De que a lida bruta irá lamber feridas
Que o mate lavado, ainda não curou...
No bico do hornero, já nasceu o dia
Nestes remotos recantos do sul!

Quem pode mais, chora bem menos,
É lei da vida, que ao certo, não falha!
Faço o que me gusta, garanto o sustento,
Pela campanha – e para minha alma...
Indo pro embate, enquanto pito, penso:
O campo eterno, meu velho parceiro,
Já me espera, de esporas calçadas!

2º Esteio da Poesia - 2º Lugar poesias (Caine Garcia), Melhor intérprete (Jair Silveira), Melhor amadrinhador (Zulmar Benitez) e Melhor Trabalho em palco.